quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Novidades da CMF e a Quebra do Modelo Sócio-Econômico



Câmara da Capital
discute Estaleiro OSX
dia 24 de novembro

Data depende de homologação
da comissão de Meio Ambiente que
se reúne na próxima quarta-feira

A audiência pública da Câmara de Vereadores que discutirá a implantação do Estaleiro OSX em Biguaçu/Baía Norte de Florianópolis deve ser realizada no dia 24 de novembro próximo. A possibilidade foi levantada pelo vereador João Aurélio Valente Júnior hoje (27.10) à tarde, durante reunião com representantes do Movimento em Defesa das Baías de Florianópolis e da Federação Catarinense das Entidades Ecologistas. Os detalhes da audiência vão ser definidos na próxima quarta-feira (3.11), às 14 horas, durante reunião da comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal.

O pedido de audiência foi encaminhado pelo vereador Ricardo Camargo Vieira (PC do B) na última segunda-feira (25.10) e aprovado por unanimidade - os 16 vereadores estavam presentes. Na terça-feira (26.10) à noite deveria ter sido realizada uma reunião da comissão de Meio Ambiente do Legislativo, quando a audiência ganharia contornos, mas ela acabou cancelada, o que gerou tensões entre o Movimento em Defesa das Baías e o vereador João Aurélio.

"O requerimento aprovado por unamidade não chegou às mãos da comissão a tempo e como não havia mais nada na pauta, a reunião foi cancelada", justifica o vereador. Os representantes do Movimento tentaram conversar com Valente Júnior, mas não obtiveram êxito. Segundo um dos presentes, João Aurélio usou as seguintes expressões: "não existia assunto na pauta que justificasse audiência"; "não tem nada de importante para se tratar, para convocar os integrante da comissão"; "Não podia fazer audiência por falta de quórum". O vereador explica que passou o dia indisposto, com dores de estômago, cabeça e sentindo o fígado, dificultando o diálogo.

A conversa com o Movimento acabou acontecendo nesta quarta-feira no gabinete do vereador, bastante amistosa, embora João Aurélio tenha reclamado das pressões através de telefonemas, e-mails e postagens na Internet. (Por C.M.)


  

O ESTALEIRO OSX E A QUEBRA DO MODELO SÓCIO-ECONÔMICO

Usufruindo os ovos
de ouro da galinha


Por Celso Martins

Dirijo-me em especial aos vereadores e ex-vereadores de Florianópolis, começando por um pequeno histórico do Legislativo.

A Câmara Municipal de Vereadores é a instituição mais antiga de Florianópolis, criada oficialmente em 23 de março de 1726, coincidindo com a transformação do povoado em Vila e o aniversário oficial da cidade. A Câmara é anterior ao Governo do Estado (surgido em 1739) e bem mais antiga que a Assembléia Legislativa (criada em 1834). Por tudo isso, o peso da responsabilidade de cada um dos vereadores é redobrado.

O Legislativo Municipal jamais faltou a seus compromissos, marcando presença nos momentos decisivos da nossa história. Oscilando entre momentos de intensa atividade com períodos mais tranqüilos, a Câmara nunca se ausentou nem se omitiu quando a cidadania reclamou sua presença. Confiando nessa tradição e, sobretudo, no perfil ético e altruísta da Edilidade, deixo aqui uma contribuição sobre os esforços dos antepassados que legaram a cidade que usufruímos hoje.

Nesta primeira parte vamos falar brevemente da Florianópolis de hoje, para que tenhamos uma idéia do que nos legou a galinha dos ovos de ouro - as belezas naturais e humanas, que atraem tantos turistas - e que estamos para perder com o impacto do Estaleiro OSX.

O site do Florianópolis e Região Convention & Visitors Bureau diz o seguinte a respeito de nossa cidade: “Quem conhece as belezas da Ilha de Santa Catarina não quer passar apenas uma temporada. Por isso, cada vez mais as pessoas estão escolhendo a capital com a melhor qualidade de vida do país para morar, e quem gosta de praia e vida tranqüila sem abrir mão das facilidades das grandes capitais, encontrou o local perfeito. Florianópolis reúne o que uma cidade grande oferece, sem perder o charme de cidade pequena”.

Entardecer na Baía Norte de Florianópolis. Foto: C. M.

A imagem da cidade atraiu e atrai milhares de novos moradores, turistas, visitantes em geral.

Continua o mesmo site: “A Ilha possui uma grande interação ente a ocupação humana e a sua preservação ambiental. A harmonia e a conservação da biodiversidade nas proximidades de um centro urbano são privilégios da região, uma capital situada em uma ilha e que mantém seus ecossistemas preservados. Atualmente existem mais de 20 unidades de preservação ecológica no município e nove parques, abrangendo 42% seu território”.

A titulo de esclarecimento, o Florianópolis e Região Convention & Visitors Bureau é o instrumento mais eficaz da promoção do turismo na sua área de abrangência.

Para ilustrar, o trecho final do referido texto: “Com o tempo, a cidade ficou mais moderna, criou uma infra-estrutura capaz de receber a todos, a economia cresceu e novas oportunidades de negócios surgiram, colocando Florianópolis no circuito dos principais eventos do Brasil e do mundo”.

Segundo a Santur, a receita gerada pelo turismo em janeiro e fevereiro de 2008 chegou a R$ 614 milhões. Em 2009 recebemos quase 800 mil turistas somente nos primeiros dois meses do ano.

Vejamos o que diz o mesmo Convention&Bureau local, em outra página de seu site, a respeito da nossa economia: “A economia de Florianópolis está concentrada no setor público, comércio e serviços, além do turismo. A cidade não possui grandes indústrias pela sua característica ambiental, que impede a instalação de empresas poluidoras. O destaque no setor industrial é o parque tecnológico, formado por cerca de 300 empresas de ponta, muitas delas fornecedoras para o mercado internacional. Juntas, geram 3 mil empregos diretos e outros 14 mil indiretos, com faturamento de R$ 500 milhões por ano. O sucesso do parque tecnológico está ligado à presença de incubadoras, que garantem apoio ao surgimento das empresas”.

Continua: “Outra importante atividade econômica, que garante emprego e renda para dezenas de famílias é a Maricultura. O cultivo de moluscos – ostras e mexilhões - iniciou na década de 90 como alternativa à pesca, que já não garantia o sustento das comunidades. Hoje, Florianópolis é o maior produtor de ostras do país, com 70% do mercado (2,5 milhões de dúzias por ano). A atividade gera 600 empregos diretos, 2,6 mil indiretos e resulta num faturamento anual de R$ 7 milhões”.

Esta é a Florianópolis que construímos no último meio século, substituindo a antiga ordem sócio-econômica, configurada pelo tradicional cultivo e processamento da farinha de mandioca e o forte comércio atacadista abastecido pelo porto fechado em 1964.




Em busca da galinha
dos ovos de ouro


Por Celso Martins

Antônio Lara Ribas foi autor do primeiro plano turístico de Florianópolis, elaborado a pedido do governador Celso Ramos para ser incluído no Plano de Metas do Governo (Plameg).

Escreveu: "Uma observação, mesmo superficial, nos convencerá de que não só a sua situação geográfica é privilegiada, mas a excelência do seu clima, a enorme variedade de acidentes topográficos e o seu majestoso conjunto hidrográfico representam argumentos irretorquíveis, que nos animam a oferecer esta modesta contribuição ao povo florianopolitano, para que possa ele ter no turismo segura e promissora fonte de recursos".

Lara Ribas destacava que para o bom êxito do empreendimento turístico era de "suma importância que a população local ofereça condições de receptividade, sobretudo aos visitantes estrangeiros, de forma que eles se sintam à vontade e confiantes na hospitalidade que se lhes oferece".


Valores paisagísticos

Paulo Fernando Lago analisa a gênese na atividade turística na cidade em seu clássico Santa Catarina - A transformação dos espaços geográficos. A década de 1970, escreveu, foi "decisiva para a definição do modelo do crescimento de Florianópolis, com o afloramento de novas forças ordenadoras da forma e intensidade do uso do solo". A "visão antecipadora da valorização de ambientes costeiros é perfeitamente demonstrada pela estratégia de pessoas e empresários locais, que foram adquirindo grandes glebas para posteriores loteamentos direcionados, inicialmente, para as planícies setentrionais da Ilha". Foi o tempo da "caça de ilhas e promontórios".

Nos órgãos públicos, por esse tempo, "desenvolviam-se idéias sobre as estratégias de aceleração de uma tendência perfeitamente avaliável, quando se examinava o avanço da 'frente de ocupação turística', das praias riograndenses em direção Norte". Surgem os primeiros loteamentos no Norte da Ilha (Jurerê, Daniela). Nos anos 1970 a tendência se consolida. "A crença no turismo redentor foi, inicialmente, um pacto social, um consensoi, a proclamação da necessidade do desfrute de valores paisagísticos que não tinham significado de mercado". Ou seja, "a proposta de turismo ganhou credibilidade, sensibilizando ainda mais a esfera política na condução de investimentos públicos em campos infra-estruturais, atraindo setores empresariais, internos e externos, representativos do grande capital e, também, cativando os pequenos investimentos".


Matéria-prima

Segundo Lago, "a sinfonia do turismo redentor foi orquestrada pelo Poder Público e tocada por muitos instrumentistas, agarrados às partituras que permitiam melódica evocação das belezas naturais", resume. Em redor da orquestra, "a sociedade formava um coro monumental, e de todas as gargantas, dos pedreiros, carpinteiros, professores universitários, mecânicos, hoteleiros, médicos, comerciantes, juizes e proprietários fundiários, os acordes se ajustavam na alquimia e, ao mesmo tempo, aplaudiam a mais decidida interferência do poder público, na direção das infra-estruturas".

No final de 1981 surgiu o Plano de Desenvolvimento Turístico do Aglomerado Urbano de Florianópolis, elaborado pelo Instituto de Planejamento de Florianópolis. (IPUF) Visava "orientar as entidades públicas e particulares atuantes" na região da Capital.

No item 10, Estratégia de Marketing, lemos que o plano de marketing terá efeito a longo prazo, "porém isto só terá sentido se a matéria-prima do turismo for preservada". A combinação das "belezas naturais situadas nas proximidades da cidade possui um valor turístico especial, concedendo à Ilha de Santa Catarina uma vantagem na concorrência com os demais lugares de paisagens e praias bonitas do Brasil".


“Ilha dos Sonhos”

"A vocação natural da cidade de Florianópolis é, sem dúvida nenhuma, o turismo", afirma o editorial da revista Florianópolis - Um Pólo Turístico (1989/1990), assinada pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos. A publicação foi editada pela Fundação Pró-Turismo de Florianópolis (Protur), visando "divulgar o turismo do município", entidade presidida pelo próprio Marcondes de Mattos, tendo como vice o empresário Alaor Tissot.

"Florianópolis, a capital do estado, é o centro do turismo de verão", onde o "espírito açoriano, herdado dos imigrantes que povoaram a região há 250 anos, personaliza a Ilha". Ou seja, "os barcos de pesca, as rendeiras, o folclore, a culinária, a arquitetura colonial e fortalezas históricas qualificam o turismo e atraem recursos que compensam a falta de indústria de porte". As afirmações estão em um folheto de meados dos anos 90 do século passado, editado pela Santur e pelo Governo do Estado. Com o título Florianópolis, Ilha dos sonhos, anuncia a existência de "vilarejos envoltos em tradição e história", como Santo Antônio de Lisboa e Ribeirão da Ilha, e praias de "águas calmas e boa infra-estrutura", como Jurerê, Canasvieiras e Ingleses", as mais procuradas pelos argentinos.


Vai um x-salada?

Os esforços para consolidar esse perfil são muitos e vamos citar alguns.

Documento da Diretoria de Desenvolvimento Econômico/Governo do Estado, de julho de 1997, intitulado Por que Santa Catarina e voltado a investidores externos, assegura: "A pesca, sobretudo a artesanal, tem presença marcante na formação da economia regional [litoral catarinense], tendo o turismo se consolidado como a atividade mais importante".

Nos dias 27 e 28 de janeiro de 1999, a Protur e o Convention Bureau de Florianópolis organizam o Seminário estratégico da área de eventos de Florianópolis, visando "aumentar o nível de sinergia entre as entidades ligadas à área de eventos" na Capital. São alguns dos esforços visando a quebra da sazonalidade do turismo com a ampliação do setor de eventos. Por outro lado, os organizadores do seminário "O planejamento e a imagem das cidades turísticas: grandes transformações urbanas", realizado no mesmo ano, buscavam criar instrumentos para habilitar o setor turístico local de olho na "concorrência global".

O setor empresarial de Florianópolis que apóia a implantação do Estaleiro OSX, fazendo vista grossa aos danos ambientais irreversíveis, se interessa pela viabilização de um porto turístico. O projeto havia sido abandonado devido aos altos custos com a dragagem de um canal para o acesso das embarcações. Como parte do canal poderá ser dragada pela OSX, o empreendimento se tornaria viável. O projeto cria uma contradição profunda, pois querem misturar navios de cruzeiros com plataformas de petróleo e petroleiros num mesmo espaço.

Resta indagar sobre o que esses turistas vão apreciar na cidade, já que não poderão andarde escuna pelas fortalezas e a Baía dos Golfinhos ou percorrer os trechos restantes de nossas praias, que estarão cobertos de piche. E mais: o que vamos oferecer no jantar? Camarão branco, filé de pescada, ostras e mariscos das nossas baías, ou congeladas postas de salmão e merlusa importadas? Bem, restará a alternativa de levar todos para uma visita às dependências do Estaleiro OSX, onde poderão partilhar um x-salada com seus gerentes e diretores.


 Fonte: Blog Sambaquinarede2
 

2 comentários:

Fred disse...

Além da quebra do modelo sócio econômico, o estaleiro vai quebrar a cadeia trófica da baia norte, vc poluindo manguezais(ESEC Carijós) e fauna bentônica(Dragagem) nada haverá mais ali, nem peixes nem camarões tudo é afetado pq se quebra uma cadeia trófica.Vamos ter que importar ostras do Chile e camarões do Nordeste.

Fred Oceanógrafo disse...

Celso,Parabens pelo texto, é perfeito!!